Fair Trade: por que é tão importante?

Por Bruno Maranhão

Talvez você nunca tenha ouvido falar nessa expressão: Fair Trade. Por isso, muito menos deveria questionar-se sobre sua importância. Então por que falar do assunto?

Se leu até aqui, muito possivelmente foi levado pela curiosidade e esse é um dos motivos da importância desse tema. Talvez Carl Jung poderia dizer que existe um inconsciente coletivo que busca lidar com a justiça das relações comerciais.

Um dos motivos pelo qual você não tenha ouvido falar neste termo pode ser o fato de não se tratar de um assunto do mainstream corporativo, apensar de que outros termos que guardam alguma correlação com a ideia sejam mais comuns, tal como a sigla ESG, acrônimo em inglês para environmental, social e corporate governance, ou ambiental, social e governança corporativa, amplamente utilizado no mundo dos investimentos para se referir a aspectos não financeiros da gestão empresarial.

Outro motivo pode ser o fato de que hoje ele é aplicado para designar relações comerciais entre mercados consumidores e produtores ou cooperativas locais, com objetivo de colaborar com suas comunidades, fazendo com que produções agrícolas ou artesanais, muitas vezes oriundas de países em desenvolvimento, cheguem aos mercados consumidores desenvolvidos, restrito na maioria das vezes a itens como café, cacau, açúcar, vinho, banana, ou tecido.

Portanto, pode ser que esse inconsciente coletivo tenha surgido justamente por ser um conceito que as áreas industriais já conseguem intuir, mas que não pode ser absorvido pelo conceito do ESG do mercado de investimentos e nem tão pouco pode ser contemplado pelas iniciativas puramente sociais do fair trade de commodities.

Neste caso, estaríamos inaugurando o conceito do “fair trade industrial”, baseado na mesma tendência que levou os mercados financeiros a criar o ESG, mas aplicado à atividade de comércio entre as empresas.

Fair Trade Industrial

Como movimento o fair trade remonta ao período da escravidão negra do século XVIII, quando investidores ingleses começaram a limitar a compra de produtos de regiões escravocratas, como no Brasil e no sul dos EUA.

Mas ganhou força no século XX, principalmente no período que vai do pós-guerra aos anos 70, quando o mundo, que viveu uma ascensão de conflitos por toda a sua história se depara com a possibilidade de decretar o fim da própria humanidade, diante da ameaça de uma guerra nuclear.

Surgia nesse momento pela primeira vez uma consciência global, e a ideia de que todos estavam conectados.  O comércio teve um papel fundamental nessa iniciativa de paz, pois foi por meio das cadeias globais, que se gerou a interdependência necessárias entre as economias que faz com que hoje uma guerra mundial seja completamente inviável.

No entanto, esse movimento preocupou-se apenas com o comércio, e não exatamente com conceitos que hoje se tornam mais presentes nas agendas de governos, empresas e sociedade, tais como a sustentabilidade e impacto social.

Os acontecimentos do início do século XXI se tornaram o vetores de uma nova consciência a ser aplicada ao comércio, não só entre produtores locais de comodities e mercado consumidores desenvolvidos, mas também entre as empresas, que compram e vendem produtos entre si, e que justamente por isso são responsáveis por boa parte das economias locais e globais, que afetam diretamente a vida de milhares de pessoas, sejam porque trabalham nessa cadeia de suprimentos, ou porque são consumidoras dela.

Assim, já era hora dos líderes dessas cadeias de suprimentos industriais, os quais, no Brasil, alguns deles fazem parte do Procurement Club, iniciarem um movimento que torne o comércio entre empresas mais justo, sustentável e socialmente responsável, baseando suas negociações na transparência das relações e na propostas de criação de valor não só para as empresas, como também para a sociedade, de forma a participar a todos da nova economia mundial que surge.