Corporate e Startups: Acompanhe as transformações!

Muito se fala do impacto que a transformação digital pode trazer para as grandes empresas. Mas, apesar de dentro desta pauta realmente termos diversas possibilidades de avanços, como a digitalização de processos, uso de tecnologia para otimização de processos operacionais e melhora na experiência dos clientes, a verdade é que estamos passando por transformações com um potencial de impacto ainda maior.

Vivemos em uma época de transformações sociais e culturais, e o impacto delas nos negócios é enorme. Estamos mudando a maneira como lideramos nossas empresas, desenvolvemos e distribuímos soluções e, principalmente, a forma com que continuamos inovando.

A inovação aberta

Inovação aberta, ou em inglês open innovation, é um termo criado em 2003 por Henry Chesbrough para as indústrias e organizações que promovem ideias, pensamentos, pesquisas e processos abertos a fim de melhorar o desenvolvimento de seus produtos, prover melhores serviços para seus clientes, aumentar a eficiência e reforçar o valor agregado.

Com a inovação aberta, acredita-se que a detenção do conhecimento e a identificação de novas soluções podem estar em qualquer lugar, tanto interno quanto externo, de uma cadeia de valor de uma empresa. Ou seja, através de funcionários de distintas áreas, fornecedores, parceiros, universidades, outras empresas e etc…

Agora pensa comigo, qual a entidade atual que mais representa inovação? Exatamente, as startups. Por isto se considera tanto o fato de que a inovação nas grandes empresas será aberta e passará pelas startups. Tendo isto em vista, no dia 02 de Maio, o Procurement Club apresentou em sua 10º Edição o painel de debates sobre Relacionamento com Startups. O evento reuniu mais 80 convidados c-level que discutiram sobre as melhores práticas relacionadas a Open Innovation e como as grandes empresas podem se tornar mais relevantes através da aproximação com startups.

A mentalidade e a expectativa correta

Existem vários caminhos para as grandes empresas, ou corporates como são mais conhecidas neste ecossistema, se relacionarem com as startups.

Mas antes de sugerir um caminho para iniciar este processo, vamos fazer uma reflexão juntos. Sabemos que qualquer mudança radical traz inúmeros desafios e resistências. Sabemos também que, esta transformação é algo novo e repleto de incertezas, certo?

Analisando estes ingredientes, vemos muito do contexto existente no dia a dia de uma startup. Então, já que estamos falando de como nos relacionar com ela, por que não pensar como uma startup pensa para entender como começar esse processo de inovação em corporates? 🙂

Considerando algumas características comportamentais dos fundadores de startups temos

  • Pensamento enxuto e agilidade

As startups, em geral, possuem recursos limitados para atingir seus objetivos e crescimentos exponenciais. Com isso acabam desenvolvendo uma habilidade de sempre buscar a solução mais otimizada e simples para determinada situação.

Velocidade no curto prazo e paciência no longo prazo. Esta costuma ser a mentalidade das principais startups. Com uma estrutura enxuta, consegue ser mais ágil para seus avanços diários, sendo estes sempre em direção aos seus grandes propósitos de longo prazo.

  • Experimentação e tomada de risco

Quando tratamos de ambientes incertos, precisamos antes de tudo aceitar que o erro faz parte do processo. A lição mais importante de um método científico é: se você não pode fracassar, você não pode aprender.

Pequenos experimentos mensuráveis geram diversos aprendizados. Estes aprendizados muitas vezes nos obrigam a mudar de estratégia ou proposta de solução. Isto é totalmente aceitável, e inclusive deveria ser valorizado, afinal quanto mais rápido descobrimos, mais tempo, recurso financeiro e energia economizamos.

E outro detalhe importante: é necessário ter um bom alinhamento na definição de sucesso. Se a métrica for um resultado financeiro em curto prazo, provavelmente ela não será atingida. É preciso ter métricas mais coerentes para o cenário de inovação.

Agora sim, como começar o relacionamento entre corporates e startups?

Existem diversas formas do relacionamento de grandes empresas com startups acontecer. A implementação de cada uma delas vai depender do estágio de maturidade em inovação aberta e do design organizacional que a empresa possui.

Poderíamos falar sobre a possibilidade de criar sessões de matching, coworking, programa de aceleração corporativa, corporate venture, corporate venture builder ou um programa de desenvolvimento de startups internas, mas vejo todos estes itens exigindo uma maturidade e uma capacidade de investimento mais altas, portanto, vamos deixar para nos aprofundar sobre alguns deles em próximos artigos.

Neste artigo vamos trabalhar com uma sugestão que considera a mentalidade citada anteriormente e um estágio totalmente inicial de engajamento e que pode ir evoluindo aos poucos:

  • Problemas ou necessidade

    O principal motivo de falha das startups constatado hoje é devido elas desenvolverem uma solução que o mercado não precisa. Se partirmos sempre de um problema ou necessidade existente, fica mais fácil desenvolvermos boas soluções. Portanto, em vez de pensarmos em programas complexos de investimento, vamos iniciar esse relacionamento de maneira bem direcionada e enxuta, escolhendo um problema significativo que a empresa está enfrentando no momento.

  • Busca por startups existentes

    Se o problema não for extremamente singular, é provável que já existam novas soluções sendo desenvolvidas para ele. Só no Brasil já temos mais de 12000 startups, quem sabe não é possível encontrar uma para resolver esta demanda.

  • Prospecção

    A grande empresa pode utilizar bases de dados para encontrar novas soluções, e as que passarem por critérios de seleção podem ser prospectadas.

  • Chamada pública

    Um outro caminho, complementar ou não, pode ser a realização de uma chamada pública. Ou seja, convocar startups que possam solucionar o problema em questão.

  • Contratação ou POC

    Uma vez que novas soluções foram encontradas, e uma delas foi selecionada com potencial de resolução daquele problema, é possível avançar em um processo de contratação ou ao menos de uma prova de conceito. Um detalhe importante é que as startups possivelmente não atenderão alguns critérios do setor de compras. Portanto aqui já se inicia um processo de aprendizado, adaptação e desburocratização para que seja possível iniciar um relacionamento adequado com a nova empresa.

  • Resolução do problema

    Este é o principal objetivo desta iniciativa. Encontrar uma solução inovadora para um problema existente. Entretanto, o processo como um todo, desde a seleção até a contratação, deve gerar novos aprendizados, principalmente nos quesitos de cultura e agilidade que as startups possuem.

  • Comercialização conjunta

    Até aqui falamos de etapas com baixos investimento e risco, além de um relacionamento moderado. Esse era realmente o objetivo. Começar pequeno, experimentar. No caso de uma boa prestação de serviço, com a confiança sendo construída, podemos avançar esta relação para níveis maiores. Uma delas por exemplo, é atuar como um canal de distribuição daquela nova solução, agregando valor para a própria cadeia de clientes ou fornecedores da grande empresa. Tanto este quanto o item abaixo, não são tão comuns, mas podem acontecer; especialmente em soluções para problemas muito relacionados ao negócio principal da empresa.

  • Corporate venture

    Por fim podemos chegar no “casamento”. Neste momento, o relacionamento entre as empresas estará muito forte e a oportunidade de negócio estará mais comprovada com o impulsionamento desta relação. Com isso, é possível dar um outro passo; onde a corporate pode deixar de ser apenas uma cliente e parceira comercial para se transformar em sócia daquela startup.

Como vimos, os caminhos e desafios são diversos, porém as oportunidades também serão!

Se você é uma grande empresa e acredita que seu negócio é imune a estas transformações. Reflita um pouco mais. Avalie a quantidade de mudanças tecnológicas e em negócios que aconteceram nos últimos 10 anos. E mais do que a quantidade, avalie a velocidade que estão acontecendo.

Os negócios podem ter funcionado muito bem até aqui, mas não temos garantia nenhuma de que vão continuar funcionando daqui em diante. E ninguém quer ser mais uma empresa tradicional que acabou perdendo espaço para uma nova empresa que inovou mais, não é?

Os benefícios de se iniciar esse relacionamento com as startups, valem os sacrifícios da transição. Vamos inovar?!

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Anderson Arcenio é bacharel em Sistemas de Informação, pós-graduado em Gerenciamento de Projetos e atua há 14 anos com projetos digitais. Empreendedor com startups há 9 anos, é sócio das empresas FCJ Bauru, Digital Labs, Cocreare, Protarefa, Salus e Dinamize. Está também à frente da comunidade Sandwich Valley.
Este artigo também está disponível em: https://startupi.com.br/2019/02/corporate-e-startups-iniciando-um-processo-de-inovacao-aberta